domingo, 11 de julho de 2010

A GENTE CRESCE?

Tenho idade para ser sua filha ou sua mãe, o que pouco importa.

Hoje preciso dizer o quanto ando desinteressada pelos adjetivos. Nós, humanos, precisamos entender de uma vez por todas que somos, todos nós, substantivos; indefinido, indeterminado, próprio. Assim me parece mais agradável. Sobre tantas outras pessoas, sobre tantas outras vidas, sobre tantas outras coisas, venho fortalecer uma lembrança: existe alguém atrás da porta, existe alguém atrás do muro, existe alguém atrás da linha, viu? Não, essa pessoa não é um adjetivo, não é uma simples puta, um simples gay, uma simples anoréxica, ladrão, assassino. É uma pessoa, um ser humano, são sentimentos, mãos, pés, são rins, coração, vértebras, coluna, são enzimas, vísceras, fígado e seios, são pênis, vagina, dedos, boca e saliva. São todos nós, somos todos nós que vivemos nesse mundo, tão cansado e tão maltratado de adjetivos. Tão sofrido e tão choroso de encontros adiados, contatos não terminados, corações machucados, queimaduras de terceiro grau. Nossos lugares, chorosos e sofridos desse egoísmo todo que somos todos nós.

É que pensar sobre o que ocorre a minha volta tem sido algo frequente. Vai, quer saber um segredo? Eu sempre digo aos outros que as coisas acontecem naturalmente, mas eu mesma não me permito isso. Eu sigo, acreditando ter o controle sobre quase tudo que ocorre, e não tenho. De repente, você percebe que todos à sua volta vivem fazendo coisas, incomuns ou cotidianas, e isso tudo começa a interferir sobre os seus desejos. Dessa forma a gente acaba estabelecendo laços com as vontades dos outros. Por que faço-fazemos isso? Boa pergunta! Talvez seja para me-nos proteger, talvez seja para me-nos esconder, talvez seja porque não sei-sabemos o que realmente quero-queremos e desejar-desejarmos algo não inerente a mim-a nós me-nos faça-façamos um pouco mais decidido-(s) se o outro o for. Certo dia me disseram “Aceite que a gente cresce, inúmeras pessoas passam pelas nossas vidas, e, independente disso as coisas precisam ser feitas”. Que chatice! Crescer virou sinônimo de seguir uma ordem, que todos têm como natural, das coisas. Vamos à escola, conversamos, fazemos amigos, dançamos em festas, damos o primeiro beijo, criamos novos círculos, entramos no superior, conseguimos nosso primeiro emprego, casamos, temos filhos, envelhecemos e morremos. Sinceramente, eu nunca consegui entender porque toda essa hierarquia é a “ordem natural das coisas” e “tem que ser assim”. Por pensar e viver assim, aprendi com o tempo a fingir certas coisas. Mas fui percebendo com o tempo que fingir é como se esconder atrás de muros de gesso, que vão ficando cada vez mais frágeis e você sabe, meu bem, na próxima chuva irão desabar. O que nos motiva a continuar caminhando é esse desejo e essa esperança de que tudo sempre acaba bem para todos. Balela! Não acaba não, viu? As histórias começam e terminam, bem para um e mal para outro, ou outros. É assim, sim.


E quanto a mim? Parei de me esconder, construí muros de cimento e tijolos, bem firmes assim, com firmeza redobrada. Aprendi algo sobre limites e auto-respeito.

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